|
Arthur Ituassu
jornalista
Apesar de muita gente achar que é tudo a mesma coisa, republicanos e democratas são sujeitos políticos diferentes. Uma vez em Washington, às vésperas da eleição que definiria a reeleição de George W. Bush, visitei a sede dos dois partidos na capital americana. Encontrei à minha espera alguém de terno azul impecável, gel no cabelo e uma apresentação feita em computador, entre os republicanos, e outro de calça jeans, blazer surrado e uma lata de Coca-Cola na mão, entre os democratas, me perguntando: "O que veio fazer aqui?"
Generalizações à parte, republicanos e democratas têm, por definição, posições diferentes para todos os grandes assuntos da política, que envolvem a relação do Estado com o cidadão, a sociedade, o mercado, o mundo, etc.
Mas isso não é tão simples assim. A diferenciação, por exemplo, entre as posições políticas com relação ao tamanho do Estado se torna obscura quando se percebe que governos republicanos, que teoricamente defenderiam "Estados menores", têm, há vários mandatos, ampliado os gastos públicos, em especial nas áreas de segurança e militar. Os dois principais exemplos disso são as gestões de George W. Bush e Ronald Reagan. Ao mesmo tempo, a grande reforma fiscal feita no setor público americano recente foi obra de um democrata: Bill Clinton.
Há, no entanto, diferenças. O democrata acha que a pobreza deve se combatida por uma ação forte do Estado na área social, por exemplo. O republicano defende que o mesmo assunto deva ser tratado por mecanismos de incentivo ao mercado. O democrata pensa o setor público como uma escolha do cidadão. O republicano ataca a presença do Estado, que não dá direito de escolha ao cidadão. Democratas vêem o Estado como a virtude, em um contexto de liberdade. Republicanos vêem a liberdade como a virtude, no contexto do Estado.
A base, no entanto, é fixa, mas as posições variam no tempo. Se hoje os republicanos fazem guerra, as duas maiores delas foram lutadas por presidentes democratas: Woodrow Wilson e Franklin Roosevelt.
Uma das saídas para encontrar a diferenciação entre republicanos e democratas é utilizar a dicotomia liberal/conservador, prestando-se a atenção para o fato de que o termo "liberal" tem um significado diferente nos Estados Unidos. "Liberal" nos EUA é aquele mais favorável a uma atuação direta do Estado no alívio da pobreza e da desigualdade, por exemplo. O conservador pode argumentar que a ação interventora do Estado é causadora de pobreza e desigualdade, porque impede a liberdade do homem.
O problema é que muitas vezes o democrata é conservador – apesar de a versão republicana e liberal ser mais rara. No Brasil, também temos "liberais" e conservadores. PT e PSDB têm programas sociais mais fortes, e por isso poderiam ser chamados de "liberais", no sentido americano; são os nossos progressistas – ao menos na intenção. DEM e PMDB são velhos conservadores da cena brasileira, com ênfases no mercado, nas indústrias, no setor nacionalista, nas estatais, nos grandes agricultores.
Mas temos também liberais e interventores – agora sim, liberais no sentido local, como defensores de uma participação menor do Estado na economia. PSDB e PFL têm programas mais liberais; PT e PMDB, mais intervencionistas – e não à toa as alianças foram assim forjadas. Liberais podem ser progressistas – e o fazem reforçando a necessidade de o Estado estar voltado à geração de bens públicos. Defensores de uma intervenção maior do Estado na economia podem ser conservadores – e o fazem pela defesa do apoio estatal à produção industrial, agrícola e tecnológica.
Tudo dependerá do caminho escolhido e, nesse contexto, a complexidade é bem-vinda. Desde que não confundida com proliferação de legendas, a complexidade, em vez de confundi-lo, amplia o leque de opções ao cidadão. Se há algo que a política americana pode ensinar é que a pluralidade de opções não depende do número de partidos.
|