11 de agosto de 2007
 
Em 70 anos, luta dá lugar à festa

Kayo Iglesias

Do alto do carro de som e de seus 25 anos, a gaúcha Lúcia Stumpf comandava a pacífica passeata, embalada ao batuque de maracatu, por três ruas do Flamengo, em plena tarde de sexta-feira. Eram pouco mais de 800 jovens, marchando em comemoração à septuagenária UNE, que outrora teve participação efetiva nos momentos políticos mais importantes da história do Brasil.

O desafio nos dois anos de mandato da quarta mulher a comandar a União Nacional dos Estudantes é fazer a juventude voltar a se organizar e ir às ruas, e também recuperar a tradição combativa da entidade nas questões nacionais - e não apenas na luta em defesa das reivindicações de universitários e secundaristas.

A 'culturata' do Largo do Machado até a Praia do Flamengo 132, sede histórica readquirida este ano pelos estudantes, foi um dos atrativos da programação da festa de 70 anos da UNE no Rio: as discussões e debates deram lugar a samba com a Velha Guarda da Vila Isabel, exibição de filmes sobre o movimento no Odeon e até um arraiá "agostino" regado a forró.

Durante o ato de ontem, caminharam no mesmo passo representantes de várias gerações do movimento estudantil. Gente como o ex-deputado federal Aldo Arantes, 69 anos, que liderou a UNE em 1961 e 1962, e a atual deputada Manuela D'Ávila (PCdoB), 25, a mais votada do Rio Grande do Sul em 2006, com 271.939 eleitores.

Aldo acompanhou de perto o episódio quando, no primeiro dia da ditadura, em 1º de abril de 1964, o regime militar incendiou a antiga sede da UNE. Ao voltar ao terreno, recebeu a notícia: o arquiteto Oscar Niemeyer deu de presente o projeto do novo prédio, e agora a entidade espera patrocínio da Petrobras para erguê-lo. Terá, entre outros espaços anexos, um teatro.

- Na minha época, lutávamos contra o imperialismo e pela representatividade dos estudantes nos órgãos colegiados. Hoje, as bandeiras têm que ser o financiamento exclusivamente público de campanhas para evitar a corrupção e o aprofundamento das mudanças surgidas com o governo Lula. A UNE tem que ser um mecanismo efetivo de combate - alerta o veterano Aldo.

A caloura Lúcia Stumpf faz coro e cita a corrupção como problema "endêmico" da política brasileira. Dona de estilo jovial, tatuagens e piercing no nariz, a estudante de Jornalismo mostra siso ao discursar.

- Só uma reforma política pode acabar com a compra de deputados, que são eleitos com o dinheiro de empresários e donos de universidades privadas - acusa a gaúcha, cuja posição a favor da descriminalização do aborto rendeu-lhe a visita do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, na posse.

Daniel Iliescu, presidente recém-eleito da União Estadual dos Estudantes (UEE) do Rio, é mais flexível:

- O estudante precisa protestar, mas não pode deixar de ser alegre. Precisa de samba, de funk, de cerveja - convocou, ao microfone, durante a concentração no Largo do Machado.

A União Nacional dos Estudantes esteve presente em episódios que marcaram o país. Com seis anos de nascida, em 1943, promoveu marcha até o presidente Getúlio Vargas para cobrar que o Brasil tomasse posição contra o eixo Alemanha-Itália-Japão na Segunda Guerra.

Durante o regime militar, foi um dos principais focos de resistência e exerceu papel de destaque entre os movimentos sociais - teve como mártir o presidente Honestino Guimarães e comandou a Marcha dos 100 Mil. A organização também foi às ruas para pedir Diretas Já, na década de 80, e protagonizou a mobilização dos caras-pintadas, que resultou no impeachment de Fernando Collor, em 1992.

Nos últimos anos, as atividades mais radicais da União Nacional dos Estudantes são, na maioria, restritas às causas da educação, como a ocupação da Universidade de São Paulo, em maio.

Perguntada se o movimento estudantil está bem representado no poder, Lúcia Stumpf argumenta:

- A UNE é a principal escola política do Brasil. É onde convivem correntes de esquerda e direita, anarquistas e liberais. É positivo que isso continue acontecendo - alega, citando os nomes do governador de São Paulo, José Serra, e do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) José Paulo Sepúlveda Pertence.

[ 11/08/2007 ]   02:01