05 de junho de 2008
 
A longa marcha até Barack Obama

Gláucio Ary Dillon Soares

Sociólogo

Quando cheguei, há meio século, em Nova Orleans, para fazer um mestrado, não estava preparado para o que iria encontrar. Vivi em dois locais diferentes na Saint Charles, linda, cheia de árvores, por onde passava um bonde, o mesmo imortalizado por Tennessee Williams em A streetcar named desire. Para começar, os bondes eram segregados: brancos de um lado; negros de outro. Um dia eu estava junto de uma jovem branca quando uma exausta mulher negra se sentou do nosso lado e a jovem ficou de pé. Era a maneira padronizada de expressar desgosto e indignação pela quebra de decoro racial. Os banheiros eram segregados, os cinemas eram segregados, muitos restaurantes e bares não aceitavam negros. As igrejas eram segregadas, em parte espontaneamente.

Minha universidade, Tulane, pretendia ser "a Harvard do Sul". Era segregada. Porém, o que mais me impressionou foi quando percebi que se eu caminhava na calçada numa direção, os negros vindo na direção contrária saíam da calçada para o meio da rua. Famílias inteiras, incluindo mulheres, crianças e idosos faziam isso. Era maneira de mostrar respeito e não provocar a ira branca.

Durante o primeiro semestre morei numa pensão onde todos os inquilinos eram brancos e todos que trabalhavam e serviam eram negros.

Um dos temas prediletos de conversa na hora do jantar era como empregadas negras eram lentas, como tudo seria feito melhor e mais rapidamente se elas fossem brancas. As descrições mais comuns eram lerdas, burras, incompetentes, indolentes. Um dos jovens residentes rejeitava a teoria da evolução não porque rejeitasse descender de um macaco (assim dizia), mas por descender do mesmo macaco que negros.

O racismo organizado chegou a ser poderoso nos Estados Unidos. A KKK pode ter tido mais de seis milhões de membros. Fizeram um impressionante desfile ao longo da Avenida Pensilvânia duas décadas antes de minha chegada. Em Rosewood, perto de Gainesville, onde depois passei mais de 20 anos, um próspero vilarejo negro tinha sido arrasado devido à falsa acusação de estupro de mulher branca por homem negro.

Essas ações não foram condenadas pelas seções sulistas do Partido Democrata, partido com raízes na cultura racista do Sul.

Hoje, em 2008, um negro, Barack Obama, está próximo a ser o candidato do Partido Democrata à Presidência dos EUA.

O que passou? Uns querem atribuir o mérito exclusivamente a Obama, que seria dotado de carisma. Mas carisma não é um traço de uma pessoa, mas uma relação entre uma pessoa e eleitores. Em pesquisa feita em 1960, ficou claro que Carlos Lacerda atraia mais votos do que o esperado com base nos partidos que o apoiavam, entre as classes médias e altas. Nas classes populares, ao contrário, Lacerda recebeu menos votos do que o esperado de sua coligação de partidos. Sem descontar a influência de fatores pessoais, há mais. O carisma não basta.

Podemos assinalar "guinadas" que favoreceram pobres e desempregados e, portanto, negros em maior proporção do que brancos. O New Deal de Roosevelt, a 2ª Guerra Mundial e as políticas progressistas de Kennedy e Johnson parecem ter contribuído. Os Estados Unidos mudaram; o Sul mudou e o Partido Democrata mudou. Mudanças derivaram de políticas públicas direcionadas aos pobres que acabaram favorecendo negros; outras foram orientadas especificamente para menos favorecidos.

Porém, a origem dos processos igualitários é muito mais antiga. Quando eu cheguei a Nova Orleans e os negros saíam da calçada, ela já estava em andamento há três gerações. O país estava fechando o gigantesco buraco educacional entre brancos e negros. Em 1870, 80% dos negros eram analfabetos, percentagem que foi reduzida à metade trinta anos depois. O progresso continuou até a 2ª Guerra Mundial. Em 1980, taxas de analfabetismo eram igualmente baixas ente brancos e negros.

A discriminação com base na educação ficou mais sutil. Mudou o patamar.

Por um lado, os níveis ficaram mais altos e sofisticados: o analfabetismo foi substituído pela educação secundária; por outro lado, as diferenças na qualidade da educação passaram a ser usadas na guerra pró e contra o racismo. Porém, os efeitos igualitários da expansão educacional continuaram: em 1990, perto de 70% dos negros e perto de 80% dos brancos haviam completado o segundo grau. A barreira da qualidade foi derrubada pela lei que estabeleceu a paridade no transporte público escolar e, no nível superior, pela excepcional coragem de estudantes negros que se matricularam em universidades previamente segregadas. Em outubro de 1999, a deserção do ensino médio era mais social do que racial: 4,4% dos brancos, 6% dos negros e 7,1% dos hispânicos. Diferenças entre as classes eram maiores: 9% dos estudantes cuja renda familiar era inferior a US$ 20 mil e 2,3% daqueles cuja renda familiar era de US$ 40 mil.

Diferenças educacionais são cada vez menores, deixando a nu aspectos qualitativos e discriminação. Em outubro de 2006, a discriminação se fazia sentir nas cifras de desemprego entre estudantes: 23,5% dos negros; 19,3% dos hispânicos e 12,2% dos brancos. Entre estudantes universitários, níveis de desemprego eram menores, mas diferenças persistiam: 11,2%, 5,4% e 5,3%, respectivamente.

Várias das ações foram feitas num bom momento: forças políticas e policiais locais foram inibidas por administrações federais anti-segregacionistas de Kennedy e Johnson.

Paradoxalmente, em todo o processo, os pais contribuíram para a diferenciação educacional e as instituições para a sua redução. Parte relevante da educação de uma criança não é feita na escola, mas sim em casa, e o buraco educacional entre brancos e negros sempre foi maior nas gerações dos pais do que nas gerações dos filhos, mas alguns autores ressaltam o esforço extra feito por muitos pais e mães negros para que seus filhos e filhos fossem além deles.

A redução das diferenças quantitativas e qualitativas da educação entre brancos e negros está por trás da indicação provável de um negro à Presidência da República pelo Partido Democrata, outrora um partido com muitas seções estaduais abertamente racistas. O racismo, particularmente o racismo mais grotesco, como o observado em tantos países com a mácula da escravidão no seu passado, precisa de diferenças educacionais, de diferenças de conhecimento, de diferenças na capacidade analítica para vicejar. Há outros racismos, com outras bases, como o contra judeus, baseados em outros preconceitos.

Os EUA colhem frutos de mais de um século de lutas pela equalização racial e social pela educação. Foi um longo processo com milhões de pequenos atores heróicos ajudados por algumas figuras políticas. Está longe de completo. A candidatura de Barack Obama é o primeiro símbolo dessa vitória.

[ 05/06/2008 ]   02:01