04 de junho de 2008
 
Passagem carimbada para Gramado por apenas R$ 80 mil

Filme de baixíssimo orçamento, ‘Vingança’ é selecionado para festival

Nelson Gobbi

Uma idéia na cabeça, uma câmera (digital) na mão e R$ 80 mil no bolso. A velha máxima do cinema novo ganhou outro sentido no longa-metragem Vingança, o segundo dirigido pelo gaúcho radicado no Rio Paulo Pons. O filme, que acaba de ser selecionado para a mostra competitiva do Festival de Gramado, a ser realizado na serra gaúcha entre 10 e 16 de agosto, é parte de um acordo da produtora Pax Filmes e a distribuidora Riofilme, que prevê a produção de quatro longas de baixíssimo orçamento, ao custo total de R$ 320 mil.

– O segredo para se fazer um longa com um orçamento tão enxuto e ainda conseguir pagar a todos os envolvidos na produção é ter controle total sobre todas as partes do processo – explica Pons. – Tudo que foi usado no filme é nosso; não precisamos contratar uma produtora, nem alugar equipamento, luz, transporte ou ilha de edição. Dessa forma pudemos investir integralmente no filme os R$ 80 mil arrecadados com a Riofilme.

Os outros longas do acordo foram realizados em paralelo com a produção de Vingança, cada um com o orçamento de R$ 80 mil que completam os R$ 320 mil negociados com a Riofilme. O documentário Realizadores já está pronto e a ficção Espiral acaba de ter as gravações concluídas. O próximo passo é um "filme dentro do filme", misto de roteiro fictício e making-of, com o título provisório de A hora mágica. Pons acredita que a indicação para Gramado, concorrendo com longas como A festa da menina morta, de Matheus Natchtergaele, e Nome próprio, de Murilo Salles, é um sinal de que o projeto é viável, em termos econômicos e qualitativos.

– Por mais que sonhasse, não poderia acreditar que conseguiria chegar a um dos maiores festivais do Brasil logo no primeiro longa feito com essa estrutura – conta o cineasta. – Começamos a correr atrás da inscrição depois da exibição de uma cópia de trabalho para os representantes da Riofilme, que acreditaram no potencial de Vingança. Nossa preocupação era de que o filme tivesse, acima de tudo, qualidade compatível com a produção brasileira atual. A seleção em Gramado corrobora esta espectativa.

Para o cineasta, o pensamento que norteou o cinema brasileiro a partir dos anos 90 – com grande parte da produção vinculada à renúncia fiscal e a orçamentos milionários – engessa o mercado audiovisual.

– Produzir se tornou muito caro, até para os padrões europeus. É impossível sustentar uma indústria assim – avalia. – Também falta foco no espectador. Muita gente lança filme sem saber quem vai querer assisti-lo. Quando comecei com esse projeto, diziam que estava indo contra o mercado. Hoje, as mesmas pessoas entenderam a proposta e acham que o cinema também pode ser feito desta forma.

Entusiasta da tecnologia digital, Pons vê cada vez mais próximo o fim da película, dadas as facilidades tanto na captação quanto na edição, distribuição e exibição dos filmes.

– Para mim não há mais necessidade de película. As câmeras digitais já têm um nível de qualidade comparável com as de 35 mm. Agora os fotógrafos vão ter de reaprender seu ofício e se adaptar a essa nova tecnologia. Não é a toa que eles são os profissionais mais resistentes ao digital.

O gaúcho planeja lançar Vingança no circuito em meados de setembro, para aproveitar a repercussão de sua exibição em Gramado. Como estratégia publicitária, o diretor pretende investir no marketing viral e no boca a boca.

– O público de cinema brasileiro padrão é basicamente formado por usuários de internet. Por isso, a importância de chegar até blogs e sites dedicados a cinema – planeja. – Outro fator importante é ir até as escolas de audiovisual, investir na formação de público. É preciso pôr o filme debaixo do braço e correr atrás, não dá para ficar parado.

Depois da conclusão dos quatro longas feitos em parceria com a Riofilme, Pons pretende desenvolver melhor seu projeto de filmes de baixíssimo orçamento. Mas não descarta, um dia, estar à frente de uma produção maior.

– Não digo que não iria dirigir um longa com mais de R$ 1 milhão, mas por enquanto meu plano é, em cinco anos, conseguir produzir 20 filmes anuais com custo entre R$ 40 mil e R$ 250 mil, em parceria com outros diretores.

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