02 de abril de 2008
 
Vista essa idéia

Num movimento revolucionário na indústria fonográfica brasileira, a marca de jeans Levi’s patrocina cinco novos artistas independentes, investe em clipes, figurino, gravação e prensagem de CDs e substitui o papel das gravadoras

Clara Passi e Braulio Lorentz

Enquanto Mallu Magalhães cantarolava mansinho seu folk simplório no palco do Cinemathèque, em Botafogo, no encerramento do Festival Evidente, na sexta-feira, quatro titãs da indústria fonográfica postados na platéia batiam os cílios apaixonados para a paulista de 15 anos. Camuflados entre os fãs teens da menina prodígio do indie, os diretores de quatro grandes gravadoras do Brasil – Warner, EMI, Universal e Deckdisc – assistiam à performance e ansiavam pelo último acorde para que pudessem correr para o corpo-a-corpo no camarim. Todos já fizeram propostas oficiais a Mallu, diamante bruto endossado por mais de 600 mil acessos no MySpace. Nenhum manda-chuva recebeu resposta. E talvez nem receba. Mallu acaba de assinar contrato de patrocínio com a marca de roupas Levi’s, no projeto Levi’s® Music de 2008. Ela e mais quatro bandas independentes – Vanguart, Forgotten Boys, Drive e Cine – terão, até dezembro, aporte financeiro para usar de acordo com as necessidades de início de carreira.

"Esse é o novo caminho"

A cada ano, a lista de cinco felizardos se renova. A Levi’s não fala em cifras, mas diz que os valores variam de acordo com os artistas. Mallu investiu seu quinhão na gravação do primeiro clipe. O Vanguart também. Mas poderiam ter usado o recurso para produzir as primeiras faixas, construir um site, gravar um CD, prensá-lo... Podem, enfim, ter algumas das demandas de um artista que desponta no mercado supridas pela marca de jeans. Mas não eram essas atribuições da gravadora?

– Esse é o novo caminho – sentencia Ricardo Chantilly, presidente da Associação Brasileira dos Empresários Artísticos (Abeart). – No futuro, todos os artistas vão produzir conteúdo diretamente para as empresas. Gravadoras, hoje, não servem mais.

Para Chantilly, até a denominação "gravadora" está errada atualmente.

– Elas não gravam mais, só fazem a distribuição. É um negócio fadado ao fracasso. No pouco tempo em que trabalho com a equipe de marketing da Coca-Cola, conheci pessoas que estão muito mais conectadas ao mundo da música do que as da indústria fonográfica – compara ele, um dos produtores do projeto Estúdio Coca-Cola.

Chantilly aponta o caso da Rider como o começo tímido de um novo modelo, referindo-se ao projeto que há mais de 10 anos contrata bandas para que toquem versões inéditas em comerciais da marca. Depois, o CD com a gravação é vendido com os produtos da empresa.

– Tudo que puder ser feito para acabar com esse marasmo tem que ser feito – define Max Pierre, que já foi diretor artístico da Universal e hoje atua no selo Zeca Pagodiscos. – Espero que dê certo. O meio independente é maravilhoso.

O objetivo da ação de marketing da tradicional grife de jeans – que, desde a fundação, em 1853, se associa a grandes nomes da música, como Bob Dylan, Elvis Presley, Rolling Stones, Bruce Springsteen e Madonna e se gaba de ser a primeira marca a criar uma calça com porta- iPod, a Levi’s® Red Wired – é apoiar e divulgar novas bandas ainda virgens de contratos, através do portal Levi’s Music (que entra no ar em 9 abril), da rádio Levi’s (no site da marca desde o fim do ano passado) e com totens nas lojas. Faz parte do jogo permitir que os novatos escolham a roupa Levi's que quiserem para gravar clipes, ajudá-los a produzir as primeiras faixas e até ter turnês bancadas num segundo momento do projeto. Tudo para que os calouros ganhem visibilidade e atraiam convites de gravadoras. Ou escolham continuar a ter audiência no MySpace e lucrar com shows, como no caso de Mallu, que, sem nunca pisar no carpete corporativo da gravadora, vai ganhar corpo no investimento da Levi’s.

Maurício Busin, gerente da Levi’s para o Brasil, diz que o intuito é estritamente divulgar e incentivar o surgimento de novos artistas.

– A Levi’s quer fomentar o mercado da música – explica.

Os cinco nomes chegaram à cúpula da Levi’s indicados pela Agência de Música, de Porto Alegre, da qual faz parte Rafael Rossato. O empresário gostou tanto de Mallu que resolveu se tornar empresário da menina. Ele esclarece que, enquanto durar a parceria com a Levi’s, Mallu estará livre para assinar com quem quiser.

– Mallu não quis investir em prensagem de CDs . Está totalmente na internet – diz. – O artista é livre, não é garoto-propaganda da Levi's. Mallu não aparecerá em comerciais.

A banda gaúcha Drive e a paulistana Cine usaram o dinheiro para gravar seis músicas e prensar mil CDs. A paulista Forgotten Boys, a matogrossense Vanguart e Mallu gravaram um videoclipe. A Vanguart já foi assediada pela DeckDisk e pela Som Livre. Mas deu de ombros e lançou o disco de estréia de forma independente encartado na extinta revista Outracoisa, em agosto. Usaram a bolada da Levi’s para incrementar o site e gravar o clipe de Semáforo. Tão logo fique pronto, em um mês, o clipe irá para o site do projeto e, mais tarde, será distribuído para a TV.

Hélio Flanders, vocalista da banda, conta os pormenores.

– Usamos roupas da Levi’s no clipe. Na edição, a marca se fará presente de forma discreta, a nosso critério. A Levi’s pede que não seja algo descaradamente publicitário. Não vamos colocar um loja da marca no meio do clipe – diz.

Inédita no Brasil, a ação, que subverte a lógica tradicional da indústria, é desenvolvida na Inglaterra e na Austrália, país onde a Levi’s faz também papel de selo.

– Acho maravilhosa a iniciativa e seria ótimo se outras empresas fizessem o mesmo. A música precisa disso. Madonna assinou com a Live Nation, que não é uma gravadora, e sim uma produtora de shows. É bom ter mais opções – afirma o produtor Liminha.

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