28 de fevereiro de 2008
 
Barrados em Ipanema

Em 21 de novembro de 1962, o Itamaraty enviou uma expedição de artistas brasileiros a Nova York para fazer um show de bossa nova que seria aplaudido por 3 mil pessoas no Carnegie Hall - ou não; muitos pesquisadores classificam a viagem como um mico histórico tal o número de bicões. Entre as muitas atrações - que incluíam até nomes hoje pouco lembrados, como o compositor Chico Feitosa - estava o jovem violonista Roberto Menescal. No ano em que a bossa nova completa 50 anos, o mesmo Menescal é um dos diretores artísticos (ao lado de Oscar Castro Neves) do primeiro grande evento comemorativo do aniversário, neste sábado, no Posto 10 da Praia de Ipanema. O show Bossa nova 50 anos é controverso e deixou um punhado de artistas de cara feia. A organização do evento não incluiu pessoas seminais do movimento, entre elas nomes como o grupo vocal Os Cariocas, as cantoras Claudette Soares , Alaíde Costa e Miúcha, e Pery Ribeiro, autor da primeiríssima gravação de Garota de Ipanema, para citar apenas alguns. Dos 42 artistas sugeridos por Menescal, apenas 15 terão a honra de vestir a camisa joãogilbertiana.

- Quando soube que o show teria a participação da vocalista de uma banda de roquezinho, o Pato Fu (Fernanda Takai), enquanto eu era excluído, me revoltei - protesta Pery, que conta ter recebido, sim, um convite da produção, mas para assistir ao show como espectador. - Como é possível colocarem músicas da Nara Leão cantadas em versão rock? Eles me ligaram e respondi: "Vocês estão brincando, isso é um castigo! Vocês me excluem e ainda querem me deixar sentadinho ali, para assistir a um show de rock maquiado de bossa nova? O que artistas como Emilio Santiago e Maria Rita, com todo o respeito à mãe dela, têm a ver com bossa nova?

A organização vai pôr no palco bossanovistas como Carlos Lyra, João Donato, Marcos Valle, além de abrigar apresentações dos próprios organizadores, Menescal e Castro Neves. Mas é a presença de calouros em festa de veteranos o motivo de tanta revolta. Fernanda Takai (que recentemente homenageou Nara Leão no CD Onde brilham os olhos teus), Maria Rita e o grupo BossaCucaNova, que mescla o gênero a sons eletrônicos são os pivôs da insatisfação geral. Emílio Santiago, cujo currículo inclui gravações de bossa nova nos discos da série Aquarela brasileira, produzidos por Menescal, e um dedicado ao gênero, também estará lá, assim como Leila Pinheiro, que também fez discos de bossa.

Tanto Menescal quanto a diretora artística do evento, Solange Kafuri, explicam que não foi possível chamar todos os artistas significativos da bossa nova.

- Claro que não deu para chamar todos. Esses nomes passaram pelas mãos de uma equipe formada por um escritor, um jornalista ligado à música e um produtor de rádio, que também produz alguns shows - diz Menescal, negando-se a dar os nomes dos curadores. - Eu mesmo não fui convidado para um show em Londres, que tinha Wanda Sá, Carlos Lyra, João Donato e Marcos Valle. Os protestos são uma babaquice.

Solange Kafuri, que diz ter sido a responsável pela seleção, explica que vários dos que não foram chamados já estavam em outros eventos produzidos por ela, como o Bossa nova in concert, realizado na Lagoa Rodrigo de Freitas, em 2006, do qual também participou o BossaCucaNova

- O show tem que durar duas horas e meia no máximo. Não poderia fazer um show de cinco horas, com todos os grandes nomes - diz Solange, para quem a presença de artistas como Fernanda Takai, BossaCucaNova e Maria Rita representa a renovação do movimento.

Severino Filho, líder do conjunto vocal Os Cariocas desde os anos 40, desconhece o motivo pelo qual não foi convidado.

- Fiquei surpreso, não estamos parados, no ostracismo. Talvez nosso cachê seja um pouco mais alto do que o dos outros - desconfia Severino, logo antes de lembrar o tempo em que o próprio Menescal ia à sua casa no Leblon, em 1961, mostrar composições para que o grupo interpretasse.

Duas artistas eminentes da bossa, Alaíde Costa e Claudette Soares, radicadas em São Paulo, dizem que a distância e o não-pertencimento à "panela" dos artistas do Rio foram culpados pelo esquecimento.

- Não me surpreende que Menescal não tenha me convidado, sou sempre excluída de eventos de bossa nova por pessoas que comandam o movimento. Já me acostumei - lamenta-se Alaíde, colocando outros tipos de lenha na fogueira. - Há também preconceito racial. Nunca engoliram uma neguinha cantando bossa nova.

Claudette Soares acusa a produção de ter cometido um deslize na seleção dos nomes.

- Menescal não tem problema pessoal comigo, trabalhamos ano passado, em São Paulo. Houve algum impedimento da produção, de gente que não conhece a história da bossa nova e não pesquisou bem.

Ex-mulher de João Gilberto e parceira de palco de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Miúcha também ficou de fora da festa. Mas contemporiza.

- Foi um erro chamar o show de Bossa nova 50 anos. Este título gera confusão e polêmica, faltou diplomacia na escolha das atrações - diz Miúcha.

Apesar de Solange dizer planejar evento similar na capital paulista, Pery Ribeiro não se anima com a possibilidade de ser convidado.

- O show em Ipanema, berço da bossa, será o primeiro dessa magnitude. Estou chocado de ver que o Brasil não dá valor àqueles que lutaram pela bossa nova.

[ 28/02/2008 ]   02:01