20 de janeiro de 2008
 
Casa das Máquinas volta lubrificada por óleo hippie

A banda paulistana Casa das Máquinas está de volta. O grupo, que esteve na ativa entre 1973 e 1978, retornará no dia 3 para uma apresentação na segunda edição do festival Psicodália. O evento, voltado para o rock psicodélico e para a cultura hippie (com direito a oficinas artísticas e ambientais, além de exibições de teatro e vídeo) será realizado entre 2 e 5 de fevereiro, na Serra do Tabuleiro, em Santa Catarina.

- Para nós é ótimo retornar num evento voltado para um lado mais simples da vida - diz o fundador da banda, o baterista Luiz Franco Thomaz, mais conhecido como Netinho, que também integra, desde os anos 60, uma das mais longevas formações do rock nacional, Os Incríveis.

O Casa das Máquinas volta à ativa com dois bateristas, Netinho e seu irmão Marinho, que integrou a banda em 1975. Além deles, o grupo inclui outro músico que fez parte da banda na mesma época, o tecladista Mario Testoni. Completam a formação o guitarrista paulistano (e jazzista) Faiska e, no baixo e nos vocais, Andria Busic, da banda de hard rock Dr. Sin.

Popular, mas sem sucesso

Apesar de ter sido popular entre roqueiros nos anos 70, o Casa das Máquinas não chegou a ser um grande sucesso. Seus hits foram a balada progressiva Vou morar no ar (1975) e o rock'n'roll Casa de rock (1976). A discografia do Casa das Máquinas - que já foi toda reeditada em CD - tem como grande característica o fato de cada álbum seguir um estilo diferente. Casa das máquinas (1974) é mais pop; Lar de maravilhas (1975) é um disco de rock progressivo; já Casa de rock (1976) é totalmente hard.

- No primeiro disco, o som era mais pop porque a fórmula que eu tinha era a dos Incríveis, e era o que eu estava acostumado a fazer. Mas não era bem aquilo que a gente queria. No segundo disco, o Testoni entrou e levou a banda para o som progressivo. O terceiro álbum foi de rock'n'roll, porque saíram vários integrantes e o Piska (guitarrista) passou a ter mais espaço - relembra Netinho.

O baterista conta que, mesmo com as dificuldades enfrentadas por quem abraçava o rock nos anos 70, a banda fazia extensas turnês.

- Não havia empresários de rock na época, e eu sentia uma grande dificuldade de vender a banda. Mas a gente trabalhava de quinta a domingo. Nas turnês, alugávamos ginásios, íamos em madeireiras para comprar material para os cenários e depois caíamos na estrada de novo. - conta Netinho, garantindo que o grupo passou a gerar lucro, apesar dos problemas e da estrutura que a banda queria montar. - Em 1974 a gente tinha 18 pessoas na nossa equipe. A Rita Lee, que surgiu solo pouco depois, tinha quatro ou cinco funcionários.

Netinho garante que muitos fãs pediam a volta do grupo há bastante tempo. O baterista chegou a pensar em reunir a formação original - que contava com ele, Piska, Aroldo Binda (guitarra e vocal), Carlos Geraldo (baixo e vocal) e Pique Riverti (sax e teclados). O problema seria trazer de volta Aroldo, que vive nos Estados Unidos, onde trabalha como roadie. Já Piska, hoje dono de uma produtora, foi para um caminho diferente da proposta da banda: dedica-se a compor hits para artistas como KLB e Zezé di Camargo & Luciano.

- Seria difícil reunir todo esse pessoal - afirma Netinho, que, ainda assim, compôs uma meia dúzia de músicas novas logo que pensou em voltar com o grupo, no ano passado. - Pouco depois, apareceu o convite do Psicodália e eu resolvi aceitá-lo mesmo sem ter a banda formada. Só decidimos o time que vai para o show há dois dias. Estou muito feliz por ter o Andria e o Faíska, que é um guitarrista muito maduro.

O jornalista Bento Araújo, que faz o Poeira Zine, fanzine dedicado ao rock dos anos 70, afirma não gostar de bandas que voltam. Mas acha interessante que o Casa das Máquinas retorne, pelo menos para o festival.

- Vai ser muito bom para a molecada conhecer, e também para quem já curte o som deles. O Casa é uma banda representativa de uma época maldita do rock nacional - afirma.

Fim estranho

O Casa das Máquinas terminou em 1978 após um incidente até hoje não explicado. A banda teria se envolvido numa briga, durante a qual morreu um cinegrafista da TV Record.

- Eu estava fora do Brasil nesse dia e, quando voltei, a banda tinha acabado - espanta-se ainda Netinho. - Nunca entendi isso. Nem sei se essa briga realmente aconteceu, porque nenhum integrante diz que participou de nada.

O baterista garante que, no show novo, os fãs do Casa podem esperar um som mais progressivo e elaborado, como o do segundo álbum.

- Queremos fazer com que as pessoas tenham esperança em alguma coisa. Amor no coração é o que a gente mais tem para dar - diz, afinado com o tom hippie do Psicodália.

[ 20/01/2008 ]   02:01